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Consumir cultura é resistência… três exposições no Pelourinho que ampliaram meu olhar sobre moda, feminilidade e matriarcado

Consumir Cultura é Resistência…

Visitar exposições é uma forma de ampliar repertório e descobrir outras maneiras de compreender o mundo. Neste domingo, visitei o MUNCAB e a CAIXA Cultural, no Pelourinho, em Salvador, e três exposições me provocaram reflexões que vão muito além da experiência estética.

Acredito que o contato com a arte nos oferece possibilidades de enxergar histórias, identidades e realidades que nem sempre ocupam o espaço que estão na nossa formação cultural.

Como consultora de imagem e especialista em moda, meu olhar naturalmente se volta para os corpos, as cores, as texturas, os vestuários e os significados que construímos por meio das imagens. Mas a experiência também me colocou diante de questões relacionadas à feminilidade, à ancestralidade, à espiritualidade, à identidade e à resistência.

36ª Bienal de São Paulo… a arte conversa com a moda

A primeira exposição foi a itinerância da 36ª Bienal de São Paulo, no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), em cartaz até 29 de novembro de 2026.

Durante a visita, encontrei muitos elementos que conversaram diretamente com a Kika Consultora de Imagem. As cores, as texturas, os bordados, a representação dos corpos e os vestuários despertaram reflexões sobre a relação entre arte, moda e identidade.

A roupa não é apenas um objeto que cobre o corpo. Ela também carrega o inconsciente coletivo através da semiótica, referências culturais, pertencimentos e formas de expressão. O mesmo acontece com os elementos visuais que encontramos nas manifestações artísticas: suas escolhas estéticas podem provocar desconfortos e revelar perspectivas diversas sobre o mundo.

A experiência foi uma oportunidade de ampliar meu repertório visual e reafirmar algo que considero fundamental no meu trabalho… olhar para a moda exige curiosidade e disposição para ir além das tendências.

OMI TUTU, Água Fresca… a fluidez das águas e a força do feminino

Ainda no MUNCAB, visitei OMI TUTU, Água Fresca, exposição da artista Hariel Revignet, em cartaz até 14 de fevereiro de 2027.

Essa experiência me tocou de outra maneira. Ao percorrer as obras, senti minha feminilidade aflorar. A fluidez, as formas, os movimentos e a presença das águas despertaram uma conexão pessoal com a natureza e a espiritualidade.

Na exposição, a água aparece como uma metáfora das travessias, dos pertencimentos e das transformações. Ela pode mudar de forma, percorrer diferentes territórios e conectar lugares que parecem distantes.

A narrativa evoca Oxum, Iemanjá e Nanã, orixás relacionadas às águas e a diferentes dimensões da existência, da fertilidade, da proteção e da ancestralidade.

Como consultora de imagem, essa experiência também me fez pensar sobre a fluidez no vestir. Eu sempre digo para minhas clientes como o fluidez é associada ao feminino. E a roupa participa da construção da nossa comunicação visual. mas podemos interpretar que fluir também pode ser uma forma de resistir.

Me emocionei nesta exposição!

3 Obás de Xangô… o matriarcado e a construção da resistência

A terceira visita foi à exposição 3 Obás de Xangô, na CAIXA Cultural do Pelourinho, em cartaz até 6 de dezembro de 2026.

A mostra estabelece conexões entre Jorge Amado, Carybé e Dorival Caymmi, três nomes fundamentais para a cultura baiana, e as referências culturais e religiosas presentes em suas trajetórias e obras.

Mas um dos aspectos que mais me chamaram a atenção foi a importância do matriarcado e do protagonismo das mulheres negras na preservação e no fortalecimento da cultura afro-brasileira.

O texto curatorial destaca o papel das ialorixás, também conhecidas como mães de santo, na organização das comunidades religiosas e na continuidade das tradições ancestrais. Essas mulheres exercem funções de liderança, preservam conhecimentos e mantêm vivas práticas culturais e espirituais transmitidas entre gerações.

É nesse contexto que aparece Mãe Aninha, nome pelo qual ficou conhecida Eugênia Ana dos Santos, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá, em 1910. Ela criou a corte dos 12 Obás de Xangô, uma estrutura que fortaleceu as hierarquias negras e favoreceu alianças com intelectuais e autoridades que poderiam contribuir para o enfrentamento ao racismo e para a consolidação da cultura afro-brasileira.

Essa história nos lembra que a preservação cultural não acontece por acaso. Ela depende de pessoas, comunidades, instituições e estratégias de continuidade. E, nesse processo, as mulheres negras tiveram e continuam tendo um papel fundamental.

Reconhecer essa contribuição é também questionar quais histórias recebem visibilidade, quem é reconhecido como produtor de conhecimento e quais protagonismos permanecem à margem das narrativas mais difundidas.

Para mim, essa reflexão é indispensável quando falamos de cultura e representação.

O que a cultura tem a ver com a moda?

Pode parecer que visitar museus e exposições é uma atividade distante da rotina de quem trabalha com moda. Para mim, acontece justamente o contrário.

A consultoria de imagem não se resume a roupas, combinações, cartelas de cores ou tendências. A imagem comunica. E essa comunicação acontece dentro de um contexto social e cultural que influencia a maneira como nos vestimos, como somos percebidas e como construímos nossa relação com o mundo.

Ampliar repertório cultural é uma forma de enriquecer esse olhar. A arte nos coloca em contato com outras referências estéticas e históricas. A antropologia, a sociologia, a psicologia e a filosofia nos ajudam a compreender os significados que atravessam nossas escolhas. E o contato com diferentes manifestações culturais nos lembra que não existe uma única maneira de expressar identidade.

Por isso, não acredito em regras universais que determinem como uma pessoa deve se vestir. Acredito em conhecimento, autoconhecimento e intencionalidade. Quanto mais referências temos, mais possibilidades podemos reconhecer e explorar.

As três exposições me provocaram de maneiras diferentes, mas todas contribuíram para ampliar minha percepção sobre os corpos, a espiritualidade, a identidade e a cultura.

A visita ao MUNCAB e à CAIXA Cultural me lembrou que consumir cultura não é apenas ocupar o tempo livre ou apreciar algo visualmente bonito.

A arte pode nos emocionar, mas também pode nos deslocar para outras perspectivas. Pode despertar curiosidade, provocar perguntas e transformar a maneira como interpretamos o que vemos.

E isso faz parte da minha relação com a moda.

Consumir cultura é ampliar repertório!

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Festival dos Vinhos do Alentejo chega a Salvador

Tive o prazer de ser convidada para conhecer e divulgar, para minha comunidade, o Festival dos Vinhos do Alentejo.

O Alentejo desembarca em Salvador a partir de manhã. Nos dias 18 e 19, o Palacete Tirachapéu recebe o Festival dos Vinhos do Alentejo, evento que reúne produtores, profissionais do setor e apreciadores de vinho em uma programação dedicada aos sabores, à cultura e às tradições de uma das regiões mais conhecidas de Portugal.

O Festival dos Vinhos do Alentejo foi criado, em 2025, como um evento para aproximar o público brasileiro da identidade da região e de seus vinhos. Em 2026, o projeto ganha uma dimensão nacional, com edições no Rio de Janeiro em São Paulo e aqui em Salvador.

A programação acontece na sexta-feira, 18 de setembro, das 17h às 21h, e no sábado, 19 de setembro, das 15h às 21h.

A proposta vai além da degustação de vinhos. O festival reúne quatro espaços principais, cada um com uma experiência diferente: Espaço Alentejo, Sala de Provas, Arena DOC e Arena Sabores.

Um pedaço do Alentejo em Salvador…

O Espaço Alentejo será a área de circulação livre do festival. A ambientação busca reproduzir elementos de uma vila alentejana, com referências à arquitetura, ao artesanato e à cultura da região.

O espaço terá wine bar, onde será possível comprar vinhos em taça ou garrafa, além de petiscos. A programação também inclui música, com DJ e apresentações ao vivo, e diferentes experiências relacionadas ao universo alentejano.

Entre as propostas estão um espaço de artesanato e peças de referência da região, objetos relacionados ao vinho e uma talha de grandes dimensões criada para interação e fotografias.

A ideia é que o visitante possa permanecer no espaço durante o período de funcionamento do festival, mesmo fora do horário reservado para a Sala de Provas.

Sala de Provas reúne produtores e vinhos do Alentejo…

A Sala de Provas concentra a experiência da degustação. Os produtores e importadores participantes apresentam seus vinhos e o público pode circular pelos balcões para conhecer diferentes rótulos e conversar sobre os produtos.

O acesso é feito em horários previamente escolhidos no momento da compra do ingresso, com capacidade de 80 pessoas por sessão. Também haverá possibilidade de compra de garrafas diretamente com produtores e importadores.

Na sexta-feira, a programação começa para o público final das 17h às 18h30 e haverá a sessão das 19h30 às 21h.

No sábado, as sessões destinadas ao público acontecem das 15h às 16h30, 17h às 18h30 e 19h30 às 21h.

Entre os produtores já confirmados estão Ervideira, Tapada de Coelheiros, Carmim, Santo & Seixo, Casa Santa Vitória, Fundação Eugénio de Almeida (Cartuxa), Sogrape (Herdade do Peso) e Esporão.

A Gastronomia ganha espaço próprio…

Na Arena Sabores, vinho e gastronomia aparecem juntos em uma programação de show cooking, harmonizações e degustações.

Na sexta-feira, o público poderá participar da Academia da Harmonização, dedicada à tipicidade enogastronômica do Alentejo. À noite, a programação apresenta Vinho de Talha + Açorda Alentejana, uma experiência que aproxima duas referências da tradição gastronômica alentejana.

No sábado, a programação ganha diferentes recortes. A primeira experiência é uma Harmonização com sabores da Bahia, explorando intensidade e equilíbrio entre a cozinha baiana e os vinhos alentejanos.

Na sequência, a programação passa pelos doces conventuais do Alentejo em Tesouros do Açúcar. À noite, o público poderá participar do Banquete Alentejano, dedicado à ideia de mesa farta, e da experiência sobre o Porco Preto do Alentejo, com destaque para cortes, sabores defumados e vinhos tintos.

As experiências da Arena Sabores são realizadas mediante inscrição.

Provas guiadas e grandes vinhos na Arena DOC…

A Arena DOC é dedicada às provas guiadas e masterclasses.

Na sexta-feira a programação aberta ao público apresenta a Academia da Degustação, com uma introdução à maneira de degustar um vinho alentejano.

No sábado, o público poderá participar de três experiências.

A Masterclass Vinhos do Alentejo propõe uma degustação dedicada ao território, à elegância e à identidade da região. Depois, Aromas do Alentejo explora frutas, ervas, especiarias e memória afetiva a partir dos vinhos.

Para encerrar a programação da Arena DOC, a experiência Grandes Vinhos do Alentejo no Brasil apresenta uma degustação vertical da Tapada de Coelheiros, reunindo safras de 2013, 2016, 2017, 2018, 2019 e 2020.

Uma experiência além da taça…

A programação foi pensada para apresentar o Alentejo de maneira ampla. O vinho aparece como ponto de partida para falar também de gastronomia, música, território, tradição e estilo de vida.

É justamente essa combinação que diferencia a proposta de um evento exclusivamente dedicado à degustação. O visitante pode conhecer os vinhos na Sala de Provas, participar de uma experiência gastronômica, assistir a uma masterclass ou simplesmente circular pelo Espaço Alentejo, ouvir música e experimentar a gastronomia.

Para quem gosta de vinho, é uma oportunidade de conhecer diferentes produtores e estilos. Para quem ainda está começando a se aproximar desse universo, as experiências guiadas também podem funcionar como uma porta de entrada.

E, para Salvador, existe ainda um ingrediente interessante: colocar a cultura do Alentejo em diálogo com uma cidade que tem uma identidade gastronômica e cultural tão própria.

Vamos? Estarei lá…

Festival dos Vinhos do Alentejo – Salvador
📍 Palacete Tirachapéu
📅 18 e 19 de setembro de 2026
⏰ Sexta-feira, 18/09: 17h às 21h
⏰ Sábado, 19/09: 15h às 21h

Importante… os ingressos permitem acesso ao festival durante todo o período de funcionamento do dia escolhido e incluem a entrada, acesso à Sala de Provas no horário selecionado, uma taça oficial de degustação e uma ecobag.

As experiências das Arenas Sabores e DOC possuem programação e horários específicos e devem ser selecionadas de acordo com o seu horário na Sala de Provas e da disponibilidade no momento da compra.

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Chuteiras rosas na Copa: quando a tendência vira padrão, quem se destaca?

A essa altura da Copa, provavelmente você já percebeu: tem muita chuteira rosa em campo.

E não estou falando de qualquer rosa. É um rosa vibrante, altamente saturado, daqueles que praticamente saltam do gramado e chegam primeiro aos nossos olhos antes mesmo de conseguirmos identificar a marca.

Eu não falei sobre a polêmica do uniforme da Confederação Brasileira, mas a discussão em torno das chuteiras me chamou atenção. Não pela polêmica em si. Gosto do debate, mas gosto ainda mais de entender o que existe por trás dele.

Fui pesquisar e encontrei algumas explicações.

Uma delas é bastante objetiva: o contraste. Cores vibrantes têm grande impacto visual e, nos testes em campo, o rosa se destacou contra o verde do gramado.

Outra explicação passa pelas tendências. O rosa aparece entre as cores apontadas para 2026 por empresas de previsão de tendências.

Também encontrei uma interpretação mais simbólica, relacionando o rosa a valores culturalmente associados ao feminino, como acolhimento e sensibilidade, numa possível tentativa de produzir uma imagem mais amigável do futebol e das instituições.

E existe ainda a explicação da própria Nike. Odinga Nimako, gerente sênior de produto da marca, afirmou que pesquisas indicaram que cores vibrantes transmitem confiança em grandes competições e que o rosa apresentou excelente desempenho visual em campo.

Tudo muito pensado.

O problema é que Adidas, Puma e New Balance chegaram praticamente ao mesmo resultado. E isso, para mim, é muito interessante.

Não precisamos necessariamente imaginar uma grande conspiração. É possível que marcas diferentes estejam olhando para pesquisas semelhantes, comportamentos semelhantes, previsões de tendência semelhantes e, portanto, chegando a conclusões parecidas.

É assim que muitas tendências se consolidam, mas foi aí que a minha cabeça foi para outro lugar.

Por que uma chuteira rosa ainda precisa ser explicada?

O rosa associado ao feminino é uma construção cultural relativamente recente. Não é uma característica biológica da cor, mas uma construção cultural não precisa ser antiga para ser poderosa.

O rosa foi repetido durante décadas em brinquedos, publicidade, roupas, cosméticos, desenhos, embalagens e tantos outros lugares que acabou incorporado ao nosso imaginário coletivo.

Por isso, quando ele aparece em um ambiente historicamente associado à masculinidade, como o futebol profissional, não estamos olhando apenas para uma cor. Estamos olhando para um código e códigos visuais comunicam.

É justamente aí que a chuteira rosa fica mais interessante. Porque a questão não é por que tantos homens estão usando rosa.

A questão é… quem tem permissão para performar o quê?

Vaidade, masculinidade e permissão

Li uma frase durante essa pesquisa que ficou na minha cabeça:

“Homens se apropriando de símbolos associados à feminilidade não os torna automaticamente menos machistas.”

É uma provocação importante.

Usar rosa não significa, por si só, que as relações de gênero mudaram. Um homem pode incorporar elementos considerados femininos à sua aparência e continuar reproduzindo comportamentos machistas.

Mas existe uma outra questão aí: a autorização social.

Durante muito tempo, a vaidade foi uma obrigação feminina. Mulheres foram ensinadas a cuidar da aparência, controlar o corpo, escolher a roupa certa, o cabelo certo, a maquiagem certa. A aparência era parte daquilo que se esperava delas para que fossem consideradas bonitas, desejáveis, adequadas e pertencentes.

Para os homens, a lógica foi outra. A vaidade podia ser opcional. Em determinados contextos, inclusive, poderia colocar em dúvida a própria masculinidade. Isso está mudando. Hoje vemos jogadores de futebol usando bolsas de luxo, joias, roupas cuidadosamente pensadas, acessórios e produtos de beleza. E isso pode ser, sim, uma ampliação das possibilidades estéticas masculinas.

Mas existe uma pergunta que eu considero fundamental:

Essa liberdade está sendo distribuída igualmente?

Porque nunca foi sobre liberdade total de escolha.

Essa liberalidade pra quem pode usar o quê, quem é celebrado por isso e quem precisou lutar para que aquele mesmo código deixasse de ser motivo de ridicularização.

E aí entra a interseccionalidade.

Não basta perguntar se homens podem usar rosa. É preciso observar quais homens, em quais corpos, ocupando quais posições sociais e com quais atributos de poder podem fazer isso sem perder status.

Um jogador de futebol mundialmente famoso usando rosa pode ser celebrado como ousado, moderno e estiloso. Outra homem, em outro contexto, pode receber exatamente o tratamento oposto.

A roupa pode ser a mesma. O significado social não necessariamente é.

E não é qualquer rosa…

Tem ainda uma questão visual que não podemos ignorar. É um rosa muito saturado! A saturação aumenta a presença da cor. Ela facilita a percepção à distância, funciona muito bem na televisão, nas fotografias e nas redes sociais.

É uma excelente escolha para quem quer ser visto. Só existe uma ironia aí… Quando várias marcas escolhem a mesma solução visual, aquilo que inicialmente diferenciava o produto passa a produzir homogeneidade.

A chuteira rosa chama atenção, mas quatro marcas diferentes usando praticamente a mesma linguagem cromática diminuem a capacidade de diferenciação entre elas. A marca perde o protagonismo.

E, quando quase todos os jogadores estão usando rosa, a exceção passa a chamar mais atenção.

Messi, Cristiano Ronaldo e a força da diferenciação

Foi aí que uma coisa começou a gritar aos meus olhos. No meio daquele mar de chuteiras rosas, Messi aparece com uma chuteira azul-claro. Cristiano Ronaldo, com uma dourada. E o olhar vai para eles.

Não porque azul e dourado sejam necessariamente mais chamativos que o rosa. Mas porque são diferentes do padrão dominante. E essa talvez seja uma das melhores lições que a moda pode oferecer.

Tendência não é sinônimo de diferenciação.

Pelo contrário. Quanto mais uma tendência se espalha, maior é a possibilidade de ela deixar de funcionar como elemento de distinção. É por isso que acompanhar tendências não deveria significar simplesmente reproduzi-las.

Tendência serve para nos ajudar a compreender o espírito do tempo. A partir daí, podemos escolher como queremos nos posicionar diante dela. Ou simplesmente não usar. Afinal, quando todo mundo corre para o mesmo lugar, talvez a escolha mais estratégica seja justamente descobrir onde está o seu espaço.

No futebol, isso ficou evidente. As marcas chegaram a conclusões semelhantes e colocaram o rosa em campo. Mas alguns jogadores conseguiram se destacar justamente porque usaram outra cor.

Acredito que discussão sobre as chuteiras rosas seja muito maior do que parece. É sobre cor, mercado, tendência, masculinidade, vaidade, pertencimento, poder e diferenciação.

Porque, em terra de chuteiras rosas…

quem usa chuteira azul ou dourada é rei.

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Festival Mãos da Moda une estilistas e artesãs baianas em evento no MAC-BA

A moda autoral baiana e o artesanato têxtil tradicional se encontram na primeira edição do Festival Mãos da Moda, que acontece de 22 a 24 de maio, nos jardins do Museu de Arte Contemporânea da Bahia, em Salvador. O evento marca o lançamento de coleções desenvolvidas em parceria entre estilistas independentes e grupos artesanais da Bahia.

Idealizado pela Nordestesse, com patrocínio da Riachuelo, o projeto conecta marcas autorais e artesãs de cidades como Rio de Contas, Cachoeira, Guanambi, Correntina e Dias D’Ávila, fortalecendo o artesanato como elemento estratégico da moda contemporânea.

Ao longo de seis meses, mais de 60 artesãs participaram do desenvolvimento das coleções que serão apresentadas nos desfiles dos dias 23 e 24 de maio. Paralelamente, a Feira de Moda Artesanal da Bahia reunirá 23 artesãos e coletivos com peças em renda de bilro, crochê, bordado, macramê e outras técnicas tradicionais.

Entre os nomes participantes estão as marcas AREIA, INTTUÍ, TEROY13 e DUA, além das estilistas, com marcas de mesmo nome, Adriana Meira e Luci Bortowski.

Depois de Salvador, as coleções seguem para o Dragão Fashion Brasil, em Fortaleza, reforçando a potência da moda nordestina no cenário nacional.

Serviço
Festival Mãos da Moda + Feira de Moda Artesanal da Bahia
22 a 24 de maio
Museu de Arte Contemporânea da Bahia — Rua da Graça, 284

Desfiles
23 de maio: Areia, Teroy13 e Inttuí
24 de maio: Luci Bortowski, Dua e Adriana Meira
Das 15h às 17h

Feira
Sexta: 14h às 20h
Sábado e domingo: 10h às 20h

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O Diabo Veste Prada 2… A transformação de Andy

Quando assisti O Diabo Veste Prada pela primeira vez, assim como milhares de pessoas, fui impactada pela transformação imagética de Andy Sachs. O filme se consolidou no inconsciente coletivo muito pela narrativa da “mulher comum” que passou a dominar os códigos visuais da moda de luxo e, consequentemente, conquistou reconhecimento profissional dentro daquele universo.

Durante muitos anos, essa foi a leitura que perdurou da personagem.

Mas, assistindo a Andy agora, diante do segundo filme, o que mais me chamou atenção já não foi sua transformação estética. Foi sua transformação emocional.

A impressão que tive foi a de que Andy parecia menos interessada em performar pertencimento o tempo inteiro. E isso alterou completamente a maneira como enxerguei sua relação com a moda.

No primeiro filme, a mudança visual funcionava como uma validação profissional obrigatória. Como se, para ocupar determinados espaços, ela precisasse abandonar totalmente sua estética anterior e aderir integralmente às expectativas daquele mercado.

Já nesse novo momento, vi uma mulher mais madura, que parecia compreender a moda como ferramenta, e não como submissão absoluta à expectativa do outro.

Andy continuou utilizando peças sofisticadas e fashionistas, especialmente em eventos e contextos específicos. Mas existia uma diferença importante: agora, a imagem da jornalista parecia mais conectada à escolha do que à necessidade desesperada de aceitação.

E essa leitura conversou diretamente com algo muito presente no comportamento social feminino.

Mesmo após os 40 anos, muitas mulheres ainda sentem que precisam correr atrás constantemente uma imagem desejável, jovem e impecável para continuarem sendo levadas a sério profissionalmente, socialmente e, inclusive, afetivamente.

Enquanto os homens continuam autorizados à neutralidade estética. E essa percepção ficou evidente para mim ao surgir na tela o par romântico da personagem.

Enquanto Andy permaneceu dentro de um padrão estético rigidamente controlado, inclusive pela própria indústria cinematográfica, o homem escolhido para ocupar o lugar de interesse romântico apareceu como um homem comum, naturalmente envelhecido, com rugas e marcas do tempo visíveis. E nada disso comprometeu sua legitimidade afetiva dentro da narrativa.

E é importante pontuar: a questão aqui não é criticar o envelhecimento masculino. Pelo contrário.

O ponto é perceber como o envelhecimento masculino raramente afeta o lugar de desejo, protagonismo ou valor social desses homens. Já para as mulheres, envelhecer é quase como um erro.

Existe uma diferença brutal na forma como homens e mulheres são percorrem a linha do tempo. Enquanto os homens são autorizados a envelhecer. Às mulheres é dada a administração cruel do seu envelhecimento.

Talvez por isso Andy tenha me interessado mais agora do que na época do primeiro filme. Porque, apesar de ainda existir dentro de estruturas estéticas rígidas, pareceu menos preocupada em performar aprovação permanente.

E essa foi sua maior (re)evolução.

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Quando a roupa altera a percepção de idade: o retorno do formal e seus impactos na imagem

A forma de vestir nunca foi neutra. Mais do que uma escolha estética, a roupa opera como um sistema de códigos sociais que comunica mensagens sobre status, intenção e, inclusive, percepção de idade.

Nos últimos anos, um movimento específico tem chamado minha atenção: a crescente adesão de jovens a uma estética mais formal, marcada por alfaiataria rígida, paletas neutras e referências tradicionais. Esse comportamento não surge de forma isolada, mas dialoga diretamente com um contexto cultural mais amplo de valorização do conservadorismo.

A formalidade como sinônimo de elegância

Historicamente, peças associadas ao masculino, como blazers estruturados, camisas sociais e cortes mais clássicos estiveram associadas à autoridade e à maturidade. Esses elementos portanto compõem o que, na consultoria de imagem, se associa aos códigos visuais de formalidade.

Quando utilizados de forma predominante, esses códigos tendem a projetar uma imagem mais madura, independentemente da idade de quem veste.

O que se observa atualmente é uma simplificação desse entendimento: a associação direta entre formalidade e elegância. Nesse cenário, visuais mais neutros e estruturados passam a ser vistos como automaticamente mais sofisticados, enquanto elementos como cor, estampa e novidades são, muitas vezes, deslocados para um campo de menor relevância ou profissionalismo.

Um fenômeno cíclico

Apesar de parecer contemporâneo, esse movimento não é novo. Registros audiovisuais de décadas passadas mostram jovens adultos com estilos igualmente formais, que hoje, vistos em retrospectiva, produzem uma sensação de envelhecimento precoce da imagem.

Esse dado reforça um ponto central: a moda não apenas acompanha o espírito do tempo, mas também constrói, em cada período, uma ideia específica de como diferentes faixas etárias “devem” se apresentar.

Entre parecer mais velho e parecer mais jovem

O cenário atual revela uma tensão interessante para as mulheres.

De um lado, jovens adotam códigos visuais associados à maturidade como estratégia para serem levadas a sério em contextos profissionais e sociais.

De outro, mulheres mais velhas buscam se afastar desses mesmos códigos, com receio de intensificar uma percepção de envelhecimento ou de se tornarem alvo de etarismo.

O resultado é um movimento simultâneo e paradoxal: enquanto algumas tentam acelerar a própria imagem, outras tentam suavizá-la.

O papel do etarismo na construção da imagem

Essa dinâmica expõe um aspecto relevante: o policiamento social da aparência a partir da idade.

A ideia de que existem roupas “apropriadas” para determinadas faixas etárias não é apenas uma convenção estética, mas também um reflexo de normas sociais que regulam comportamento e expressão.

Nesse contexto, o etarismo se manifesta de forma sutil, influenciando escolhas e limitando possibilidades de construção de imagem.

Para além da idade… a lógica dos códigos visuais

Do ponto de vista da consultoria de imagem, a construção de uma aparência coerente não deve partir da idade como critério central.

A análise se estrutura a partir de três pilares:

  • identidade pessoal
  • contexto social
  • intenção de comunicação

São esses fatores que orientam a escolha dos códigos visuais mais adequados… e não uma regra fixa baseada em faixa etária.

Isso significa que tanto o excesso de formalidade quanto a tentativa de parecer excessivamente jovem podem gerar ruídos na comunicação da imagem.

Moda como reflexo do tempo

A recorrência desse tipo de fenômeno ao longo das décadas reforça uma leitura mais ampla… a moda funciona como um espelho das tensões culturais de cada época.

Se, em determinado momento, parecer mais velho pode estar associado à credibilidade, em outro, parecer mais jovem pode ser entendido como estratégia de permanência social.

Em ambos os casos, a roupa deixa de ser apenas estética e passa a operar como ferramenta de negociação simbólica.

Diante desse cenário, talvez a questão mais relevante não seja definir o que é adequado para cada idade. Mas sim compreender quais códigos visuais são capazes de traduzir o que cada pessoa deseja com precisão… a identidade, o contexto e a mensagem que cada indivíduo deseja comunicar.

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Broche volta à moda e assume papel estratégico na construção da imagem

O broche voltou ao radar da moda nas últimas temporadas. Presente em passarelas, editoriais e no styling de celebridades, o acessório reaparece como um elemento de destaque nos looks contemporâneos. No entanto, tratá-lo apenas como ornamento é uma leitura limitada do seu potencial dentro da construção imagética.

Na linguagem da moda, o broche pode funcionar como um signo imagético. Ele direciona o olhar, organiza a leitura visual da roupa e contribui para estruturar a narrativa estética de um look. Mais do que decorar, o acessório tem capacidade de intervir na forma como uma peça é percebida e, em alguns casos, até de resolver questões de modelagem.

Um exemplo prático é o uso do broche em um macacão cuja pala apresentava perda de estrutura ao longo do uso. Nessa situação, o acessório foi incorporado não apenas como elemento estético, mas também como solução técnica.

A escolha de um broche reto, com dois pins nas extremidades, não foi aleatória. A peça passou a cumprir a função de estabilizar a pala do macacão, evitando que o tecido cedesse. Ao mesmo tempo, reforçou os ângulos da construção da roupa, alinhando o visual a uma mensagem de retidão e força já sugerida pelo desenho do macacão, mesmo sendo confeccionado em tecido fluido.

O resultado evidencia como pequenos elementos podem alterar significativamente a leitura de uma roupa. Ao corrigir a modelagem, atrair o olhar para um ponto específico e fortalecer a narrativa visual da peça, o broche deixa de ocupar um papel meramente decorativo para assumir uma função estratégica dentro do styling.

Esse tipo de intervenção revela uma dimensão frequentemente negligenciada no uso dos acessórios: a capacidade de organizar visualmente o look e potencializar a comunicação de imagem.

No cenário atual, em que a moda dialoga cada vez mais com identidade e comunicação pessoal, recursos aparentemente simples, como um broche, podem se transformar em ferramentas importantes na construção de uma imagem mais intencional e estratégica.

Como consultora de imagem, observo com frequência que muitas pessoas ainda tratam os acessórios apenas como complemento estético. No entanto, quando compreendemos a moda como linguagem, percebemos que cada elemento do look participa da construção da mensagem que queremos comunicar.

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Viver Salvador não é negação da vida adulta. O olhar moral sobre o verão da cidade.

Entender o verão de Salvador exige mais do que observar os dias oficiais do Carnaval e os eventos que o antecedem. Exige entender o que atravessa gerações… e o que permanece vivo. Os eventos aqui não começam nos ensaios, nem quando o primeiro trio sai… e definitivamente não terminam na Quarta-feira de Cinzas. Em Salvador, há um estado cultural contínuo, profundamente enraizado na memória afetiva, na nostalgia (guarde essa palavra), na forma como o soteropolitano se reconhece e na maneira como a economia da cidade se movimenta, especialmente no turismo e na economia popular.

Quando o verão soteropolitando é descrito como uma “intensa rotina de eventos” que os turistas seriam “obrigados a enfrentar”, há um deslocamento relevante de perspectiva. Salvador não existe para funcionar como cenário de descanso para quem chega. A cidade pulsa, trabalha, celebra e produz cultura ao longo de todo o ano.

O problema não é a quantidade de eventos, mas o incômodo de quem só reconhece legitimidade na vida organizada exclusivamente pelos extremos produtividade/descanso. Esse tipo de olhar pode transformar a potência cultural local em algo negativo, chegando a flertar com um olhar xenofóbico. Narrativas assim podem impactar na forma como a cidade é vista e podem, sim, gerar prejuízos simbólicos e econômicos para um território em que o turismo é parte central da engrenagem produtiva.

Reduzir a presença de pessoas com 40+, 50+, 60+ na vida cultural como uma tentativa de “congelar a juventude” é uma leitura apressada e, no limite, etarista. Viver os eventos de Salvador não tem a ver com negar a vida adulta. É recusar a ideia de que “adultecer” significa abrir mão do prazer, do corpo em movimento e da participação de experiências culturais.

Para muitos soteropolitanos, o amadurecimento acontece quando se entende que viver não se resume a trabalhar, pagar contas e cumprir protocolos sociais. Amadurece quando há clareza de que o trabalho sustenta a vida, mas não a substitui. E os eventos de Salvador, nesse contexto, não são fuga. Como disse uma amiga, parafraseando Clarice Lispector, eles nos sustentam “apesar de”.

Sim, há nostalgia no viver em Salvador. Mas não é uma nostalgia paralisante. É uma nostalgia ativa, que constrói pertencimento e sustenta uma cultura que, historicamente, precisa ser defendida para não ser apagada.

O que me causa estranhamento é o modo como a sociedade valida a nostalgia quando ela serve ao consumo. O mercado relança produtos, resgata estéticas dos anos 80 e 90, monetiza lembranças e transforma afeto em estratégia de marketing. Pesquisas legitimam a nostalgia como ferramenta de conexão emocional com marcas. Ela é tratada como ativo simbólico de alto valor… para o enriquecimento de poucos.

Mas quando essa mesma nostalgia se manifesta no corpo, na dança, na rua e na ocupação da cidade, de forma coletiva e popular, ela passa a ser deslegitimada. Torna-se sinônimo de imaturidade. Surge a indisposição. Interessante. Porque nesse momento também há “produto premium”, há curadoria elitizada e há vida acontecendo, só que validada.

Outro equívoco recorrente é supor que o soteropolitano “vai a tudo”. Não vai. E aqui o recorte de classe é incontestável. A maioria escolhe. Frequenta alguns eventos, ignora outros, circula conforme o desejo e dentro das possibilidades reais da vida adulta. E quando vai, se diverte. Porque entende que estar vivo é isso. É justamente essa capacidade de escolha, e não a renúncia automática ao prazer, que define maturidade.

Como mulher feminista, consigo compreender perfeitamente mulheres nascidas entre 1975 e 1985, filhas das camadas médias urbanas, que questionam e recusam rituais conservadores de passagem impostos como obrigatórios. Estamos cansadas de nos comportar “de forma adequada” para sustentar privilégios masculinos em uma sociedade patriarcal que pouco ou nada nos devolve. Por isso, vejo amigas negando a instituição do casamento, escolhendo outros arranjos afetivos e redistribuindo responsabilidades, inclusive a parentalidade.

E cá pra nós? Qual é exatamente o problema de uma mulher adulta escolher estar numa fila para comprar glitter de Carnaval, em vez de material escolar? Esse tipo de julgamento revela mais conservadorismo moral do que preocupação social. Falta empatia. Falta reconhecimento da autonomia feminina.

No último domingo, estive no Baile de Luiz Caldas, artista que integra a minha formação cultural desde a adolescência. O ambiente estava repleto de pessoas idosas. Ao observá-las, tanto ali quanto nas festas de rua, vejo um envelhecimento ativo, vínculo social preservado e uma cultura que não descarta corpos com o passar do tempo. Uma cidade que expulsa seus mais velhos da celebração pública, da cultura que eles próprios ajudaram a construir, empobrece a própria memória.

Para finalizar… A exaustão vem de sustentar uma vida regulada pela lógica do capitalismo, onde só a produtividade, e a produção de riqueza para poucos, legitima a existência. Os chamados “rituais de passagem” para a vida adulta operam como crenças conformistas: disciplinam corpos, desejos e o uso do tempo, dizendo o que é aceitável viver e desejar.

O cansaço não vem da festa. Vem da exigência constante de produzir, de performar maturidade e de justificar qualquer forma de prazer. Aqui, amadurecer também significa compreender que a vida comporta cansaço e alegria. Que o corpo sente… mas insiste. Que a exaustão não anula o desejo, apenas o torna mais consciente.

Talvez o erro esteja em insistir em ler Salvador com as lentes erradas. Viver a cultura da cidade não é negação da vida adulta. É uma de suas expressões mais atuais e sofisticadas. Porque “adultecer” não é deixar de brincar (oi, terapia!). É escolher quando, como e por que brincar, sabendo exatamente o peso e o valor disso.

“Adultecer”, com consciência das opressões do mundo, já é difícil o suficiente. Não precisamos criar réguas morais que tornem o viver do outro ainda mais sofrível.

Há leituras sobre Salvador que revelam mais sobre o olhar de quem observa do que sobre a cidade observada. Quando uma manifestação cultural complexa é analisada a partir de uma régua única o resultado deixa de ser análise social, e passa a ser julgamento moral raso travestido de reflexão.

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Magreza, poder, distração social e o mito da beleza

Quando Maya afirmou, no passado, que “gente rica é apaixonada por magreza”, a frase foi recebida como polêmica. Mas, antes de tudo, ela operou como um diagnóstico social. Incômodo, mas preciso.

A declaração surgiu no contexto em que sua magreza vinha sendo amplamente comentada e criticada. E, naquele momento, eu concordei com a constatação central: a magreza feminina funciona como marcador de diferenciação social. No entanto, discordei profundamente da forma como essa constatação foi utilizada. Não como denúncia estrutural, mas como ferramenta de validação pessoal.

A própria Maya declarou ter investido cerca de cinco milhões de reais para se enquadrar em um padrão específico de feminilidade: magra, pele branca, cabelo longo e liso, olhos claros, corpo musculoso. Esse dado não é acessório. Ele revela algo central: quem tem dinheiro pode escolher qual estereótipo de feminilidade vai performar. Mas isso não configura liberdade. Entendo que configura um acesso ao modelo hegemônico.

Esse estereótipo não nasce do acaso. Ele é herdeiro direto de uma lógica eurocêntrica, racista, patriarcal e classista. Quando uma figura pública reforça esse padrão como símbolo de sucesso, ela não está falando apenas de si. Ela está alimentando uma engrenagem que já opera há séculos.

No livro O Mito da Beleza, Naomi Wolf argumenta que os padrões estéticos funcionam como um sistema de controle social. É importante pontuar que controvérsias posteriores envolvendo a autora não invalidam a relevância política e teórica dessa obra. Seus argumentos permanecem estruturalmente consistentes.

No livro faz se entender que nesse sistema, a mulher é ensinada a investir tempo, energia, dinheiro e sofrimento na construção de um corpo desejável, enquanto poderia estar investindo em autonomia financeira, produção intelectual, poder político e organização coletiva. Beleza, nesse modelo, não é uma questão estética. É uma tecnologia de distração.

Esse raciocínio se atualiza de forma evidente no atual boom das canetas emagrecedoras e das pílulas. A magreza extrema retorna com força, agora embalada pelo discurso da indústria farmacêutica e médica. E aqui existe uma contradição central.

Durante anos, movimentos contra a gordofobia afirmaram que não se trata apenas de força de vontade. Que existem atravessamentos metabólicos, hormonais, corporais e culturais. Esse argumento foi sistematicamente deslegitimado. Hoje, esse mesmo discurso passa a ser aceito… desde que sirva para sustentar um modelo de medicalização contínua. Não como possibilidade. Não como escolha. Ou seja, como protocolo vitalício.

Paralelamente, a história mostra que sempre que mulheres avançam socialmente, surge um movimento de recaptura. Esse movimento opera, sobretudo, desviando a atenção das mulheres. Desvia-se energia política para energia estética. Desvia-se conflito estrutural para conflito corporal.

Na Segunda Guerra Mundial, mulheres ocuparam massivamente o mercado de trabalho. Quando os homens retornaram, elas foram empurradas de volta para o espaço doméstico, embaladas pelo ideal da dona de casa perfeita. Hoje, o discurso não se limita apenas ao “volte para casa”. Ele se reorganiza também com o “volte para o espelho”.

É importante afirmar: o problema não é uma mulher escolher ser magra. O problema é a imposição da magreza como moeda de valor social. O problema é comunicar, direta ou indiretamente, que esse corpo magro é o único corpo legítimo de existir.

Como Bell Hooks nos lembra, o feminismo não é sobre acesso individual ao poder. É sobre desmontar os sistemas que produzem desigualdade. Escolher o estereótipo mais caro não é libertação. Libertação é questionar por que ainda precisamos de estereótipos.

Se esse conteúdo te atravessou, transforme incômodo em ação. Compartilhe. Comente. Coloque esse debate em circulação. Corpo é política. E silêncio é escolha.

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Noite da Aclamação: Raul Seixas como tema, gala como base e os limites da leitura de dress code

A Noite da Aclamação partiu de um direcionamento objetivo: roupas de gala como base somadas a uma homenagem estética a Raul Seixas. Formalidade, ousadia, autenticidade e atitude estavam claramente colocadas como pilares do manifesto visual divulgado pela organização.

O dress code existiu. Foi publicado. Estava acessível. Ainda assim, é possível afirmar que foi pouco lido — e isso gerou ruído.

Em um baile com tema, não basta estar bem vestido. Não basta estar “bonito”. Look precisa de intenção, narrativa e leitura estética. Precisa comunicar.

Parte do público optou por produções corretas do ponto de vista da formalidade, mas genéricas em relação ao conceito. Vestidos de festa apareceram em grande número, porém sem a camada simbólica que conectaria essas peças ao homenageado. Nesse contexto, os acessórios eram o principal instrumento de diferenciação. Quando inexistentes ou mal explorados, os looks permaneceram no óbvio.

Por outro lado, houve participantes que entenderam exatamente o que estava sendo proposto e entregaram imagem, conceito e personalidade.

Zebrinha surgiu elegante, dentro da formalidade exigida, com referências simbólicas bem aplicadas. Os óculos, elemento fortemente associado a Raul Seixas, ampliaram a leitura do look.

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Rafaela Amoreira demonstrou compreensão da proposta. Mesmo utilizando uma cor clara, tradicionalmente menos associada ao universo gala, construiu uma produção coerente com o conceito do evento.

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Dinho Junior, produzido por Filipi, apresentou uma leitura autoral, combinando originalidade e homenagem.

A DJ Vivi, mesmo com a liberdade estética que acompanha sua atuação artística, se posicionou dentro do dress code, respeitando o direcionamento proposto.

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Quando anfitriões estabelecem um conceito, é esperado que também o incorporem em suas escolhas visuais. Entre os dois anfitriões, Leo e Lore, o último look apresentado foi o que mais se aproximou do conjunto de informações descritas nos cards oficiais.

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Entre as madrinhas, todas estavam elegantes. Ainda assim, senti falta de referências mais evidentes ao tema. A exceção foi Rafaela Meccia, que trouxe símbolos claros conectados ao homenageado.

Um dos destaques finais foi um look em renda branca de leitura não óbvia. A renda poderia facilmente conduzir a outras referências estéticas, inclusive ligadas às religiões de matriz africana, mas a combinação entre modelagem e acessórios afastou esse caminho, mantendo a produção dentro da proposta do evento.

A Noite da Aclamação reafirma sua relevância como acontecimento cultural. Ao mesmo tempo, evidencia um ponto importante: dress code não é sugestão. É direcionamento. E direcionamento só funciona quando é lido, compreendido e aplicado.