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O Diabo Veste Prada 2… A transformação de Andy

Quando assisti O Diabo Veste Prada pela primeira vez, assim como milhares de pessoas, fui impactada pela transformação imagética de Andy Sachs. O filme se consolidou no inconsciente coletivo muito pela narrativa da “mulher comum” que passou a dominar os códigos visuais da moda de luxo e, consequentemente, conquistou reconhecimento profissional dentro daquele universo.

Durante muitos anos, essa foi a leitura que perdurou da personagem.

Mas, assistindo a Andy agora, diante do segundo filme, o que mais me chamou atenção já não foi sua transformação estética. Foi sua transformação emocional.

A impressão que tive foi a de que Andy parecia menos interessada em performar pertencimento o tempo inteiro. E isso alterou completamente a maneira como enxerguei sua relação com a moda.

No primeiro filme, a mudança visual funcionava como uma validação profissional obrigatória. Como se, para ocupar determinados espaços, ela precisasse abandonar totalmente sua estética anterior e aderir integralmente às expectativas daquele mercado.

Já nesse novo momento, vi uma mulher mais madura, que parecia compreender a moda como ferramenta, e não como submissão absoluta à expectativa do outro.

Andy continuou utilizando peças sofisticadas e fashionistas, especialmente em eventos e contextos específicos. Mas existia uma diferença importante: agora, a imagem da jornalista parecia mais conectada à escolha do que à necessidade desesperada de aceitação.

E essa leitura conversou diretamente com algo muito presente no comportamento social feminino.

Mesmo após os 40 anos, muitas mulheres ainda sentem que precisam correr atrás constantemente uma imagem desejável, jovem e impecável para continuarem sendo levadas a sério profissionalmente, socialmente e, inclusive, afetivamente.

Enquanto os homens continuam autorizados à neutralidade estética. E essa percepção ficou evidente para mim ao surgir na tela o par romântico da personagem.

Enquanto Andy permaneceu dentro de um padrão estético rigidamente controlado, inclusive pela própria indústria cinematográfica, o homem escolhido para ocupar o lugar de interesse romântico apareceu como um homem comum, naturalmente envelhecido, com rugas e marcas do tempo visíveis. E nada disso comprometeu sua legitimidade afetiva dentro da narrativa.

E é importante pontuar: a questão aqui não é criticar o envelhecimento masculino. Pelo contrário.

O ponto é perceber como o envelhecimento masculino raramente afeta o lugar de desejo, protagonismo ou valor social desses homens. Já para as mulheres, envelhecer é quase como um erro.

Existe uma diferença brutal na forma como homens e mulheres são percorrem a linha do tempo. Enquanto os homens são autorizados a envelhecer. Às mulheres é dada a administração cruel do seu envelhecimento.

Talvez por isso Andy tenha me interessado mais agora do que na época do primeiro filme. Porque, apesar de ainda existir dentro de estruturas estéticas rígidas, pareceu menos preocupada em performar aprovação permanente.

E essa foi sua maior (re)evolução.

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Viver Salvador não é negação da vida adulta. O olhar moral sobre o verão da cidade.

Entender o verão de Salvador exige mais do que observar os dias oficiais do Carnaval e os eventos que o antecedem. Exige entender o que atravessa gerações… e o que permanece vivo. Os eventos aqui não começam nos ensaios, nem quando o primeiro trio sai… e definitivamente não terminam na Quarta-feira de Cinzas. Em Salvador, há um estado cultural contínuo, profundamente enraizado na memória afetiva, na nostalgia (guarde essa palavra), na forma como o soteropolitano se reconhece e na maneira como a economia da cidade se movimenta, especialmente no turismo e na economia popular.

Quando o verão soteropolitando é descrito como uma “intensa rotina de eventos” que os turistas seriam “obrigados a enfrentar”, há um deslocamento relevante de perspectiva. Salvador não existe para funcionar como cenário de descanso para quem chega. A cidade pulsa, trabalha, celebra e produz cultura ao longo de todo o ano.

O problema não é a quantidade de eventos, mas o incômodo de quem só reconhece legitimidade na vida organizada exclusivamente pelos extremos produtividade/descanso. Esse tipo de olhar pode transformar a potência cultural local em algo negativo, chegando a flertar com um olhar xenofóbico. Narrativas assim podem impactar na forma como a cidade é vista e podem, sim, gerar prejuízos simbólicos e econômicos para um território em que o turismo é parte central da engrenagem produtiva.

Reduzir a presença de pessoas com 40+, 50+, 60+ na vida cultural como uma tentativa de “congelar a juventude” é uma leitura apressada e, no limite, etarista. Viver os eventos de Salvador não tem a ver com negar a vida adulta. É recusar a ideia de que “adultecer” significa abrir mão do prazer, do corpo em movimento e da participação de experiências culturais.

Para muitos soteropolitanos, o amadurecimento acontece quando se entende que viver não se resume a trabalhar, pagar contas e cumprir protocolos sociais. Amadurece quando há clareza de que o trabalho sustenta a vida, mas não a substitui. E os eventos de Salvador, nesse contexto, não são fuga. Como disse uma amiga, parafraseando Clarice Lispector, eles nos sustentam “apesar de”.

Sim, há nostalgia no viver em Salvador. Mas não é uma nostalgia paralisante. É uma nostalgia ativa, que constrói pertencimento e sustenta uma cultura que, historicamente, precisa ser defendida para não ser apagada.

O que me causa estranhamento é o modo como a sociedade valida a nostalgia quando ela serve ao consumo. O mercado relança produtos, resgata estéticas dos anos 80 e 90, monetiza lembranças e transforma afeto em estratégia de marketing. Pesquisas legitimam a nostalgia como ferramenta de conexão emocional com marcas. Ela é tratada como ativo simbólico de alto valor… para o enriquecimento de poucos.

Mas quando essa mesma nostalgia se manifesta no corpo, na dança, na rua e na ocupação da cidade, de forma coletiva e popular, ela passa a ser deslegitimada. Torna-se sinônimo de imaturidade. Surge a indisposição. Interessante. Porque nesse momento também há “produto premium”, há curadoria elitizada e há vida acontecendo, só que validada.

Outro equívoco recorrente é supor que o soteropolitano “vai a tudo”. Não vai. E aqui o recorte de classe é incontestável. A maioria escolhe. Frequenta alguns eventos, ignora outros, circula conforme o desejo e dentro das possibilidades reais da vida adulta. E quando vai, se diverte. Porque entende que estar vivo é isso. É justamente essa capacidade de escolha, e não a renúncia automática ao prazer, que define maturidade.

Como mulher feminista, consigo compreender perfeitamente mulheres nascidas entre 1975 e 1985, filhas das camadas médias urbanas, que questionam e recusam rituais conservadores de passagem impostos como obrigatórios. Estamos cansadas de nos comportar “de forma adequada” para sustentar privilégios masculinos em uma sociedade patriarcal que pouco ou nada nos devolve. Por isso, vejo amigas negando a instituição do casamento, escolhendo outros arranjos afetivos e redistribuindo responsabilidades, inclusive a parentalidade.

E cá pra nós? Qual é exatamente o problema de uma mulher adulta escolher estar numa fila para comprar glitter de Carnaval, em vez de material escolar? Esse tipo de julgamento revela mais conservadorismo moral do que preocupação social. Falta empatia. Falta reconhecimento da autonomia feminina.

No último domingo, estive no Baile de Luiz Caldas, artista que integra a minha formação cultural desde a adolescência. O ambiente estava repleto de pessoas idosas. Ao observá-las, tanto ali quanto nas festas de rua, vejo um envelhecimento ativo, vínculo social preservado e uma cultura que não descarta corpos com o passar do tempo. Uma cidade que expulsa seus mais velhos da celebração pública, da cultura que eles próprios ajudaram a construir, empobrece a própria memória.

Para finalizar… A exaustão vem de sustentar uma vida regulada pela lógica do capitalismo, onde só a produtividade, e a produção de riqueza para poucos, legitima a existência. Os chamados “rituais de passagem” para a vida adulta operam como crenças conformistas: disciplinam corpos, desejos e o uso do tempo, dizendo o que é aceitável viver e desejar.

O cansaço não vem da festa. Vem da exigência constante de produzir, de performar maturidade e de justificar qualquer forma de prazer. Aqui, amadurecer também significa compreender que a vida comporta cansaço e alegria. Que o corpo sente… mas insiste. Que a exaustão não anula o desejo, apenas o torna mais consciente.

Talvez o erro esteja em insistir em ler Salvador com as lentes erradas. Viver a cultura da cidade não é negação da vida adulta. É uma de suas expressões mais atuais e sofisticadas. Porque “adultecer” não é deixar de brincar (oi, terapia!). É escolher quando, como e por que brincar, sabendo exatamente o peso e o valor disso.

“Adultecer”, com consciência das opressões do mundo, já é difícil o suficiente. Não precisamos criar réguas morais que tornem o viver do outro ainda mais sofrível.

Há leituras sobre Salvador que revelam mais sobre o olhar de quem observa do que sobre a cidade observada. Quando uma manifestação cultural complexa é analisada a partir de uma régua única o resultado deixa de ser análise social, e passa a ser julgamento moral raso travestido de reflexão.