A primeira edição da Feira Rosenbaum em Salvador, realizada em associação com a Nordestesse e ocupando o Palacete Tira Chapéu, não foi apenas a chegada de uma plataforma nacionalmente consolidada à cidade. Foi um acontecimento simbólico. Para muita gente da cidade, essa foi a primeira vez dentro do Palacete. Para outras tantas, o primeiro contato real com marcas autorais dentro de um contexto legitimado por um grande nome. E esse dado, por si só, carrega um “desconforto”.
A Rosenbaum se define como “um encontro que reúne artistas e designers independentes para levar ao público criações autorais e com identidade brasileira”. Em Salvador, a Feira encontrou uma cidade que produz tudo isso há muito tempo. Então a pergunta inevitável é: o que muda quando essa produção aparece sob um carimbo externo? Muda o fluxo de pessoas. Muda o interesse. Muda o valor atribuído. É nessa modificação que mora a questão.
Entendam… entre as marcas vindas de fora, acessórios como as de The Morais, Bianca Teotônio, Amanda Tartik e Estúdio Greta chamavam atenção não só pela estética, mas pela forma como se apresentavam. Existia um domínio claro de discurso. Materiais, processos e intenções eram comunicados com precisão. Não se vendia apenas o objeto. Vendia-se pensamento. E isso ajuda a desmontar uma fantasia comum: a de que produto autoral simplesmente brota. Não brota. Ele é construído. É fruto de pesquisa, tentativa, erro, ajuste, investimento e, muitas vezes, de um privilégio estrutural que permite tempo de maturação.
Enquanto essas marcas eram recebidas com curiosidade e encantamento, marcas locais igualmente potentes passam muitas vezes despercebidas nesse mesmo espaço de escuta. O trabalho de Junia Machado desenvolve joalheria com identidade consistente e pesquisa estética clara. A DUA, marca soteropolitana com loja física no casarão amarelo do Rio Vermelho, sustenta um ponto fixo de criação autoral em Salvador, algo difícil, e ainda assim permanece fora do radar de muita gente que se deslocou até a Feira.
E aqui é importante ser direta… o problema não é a presença das marcas de fora. Ela é positiva. O problema é o movimento contraditório de quem mora aqui.
Outro exemplo, na moda, os bordados de Alina Amaral comunicam tempo, cuidado e sensibilidade. A Tela, ao unir design contemporâneo e bordados tradicionais, apresenta uma moda que não tenta ser apressada. E isso, hoje, é um posicionamento forte. É exatamente nesse mesmo território de comunicação que atuam marcas locais como Eyde Dantas, que borda palavras, narrativas e memória diretamente nas peças, e Moab, de Feira de Santana, que regionaliza signos com inteligência visual, trocar a sardinha pela petitinga é um gesto simples, mas profundamente simbólico. Moda autoral, nesse contexto, não aparece como tendência. Aparece como linguagem. É a moda como comunicação.
No campo dos objetos e da casa, o colorido da Ceramiquinho e de Maria Gabriela trouxe afeto e calor visual. O Estúdio Libero apresentou peças que extrapolam função e convidam à interpretação. E, em Salvador, a mesma matéria-prima está presente em marcas como Let Marques Cerâmica e Meu Tortinho, que desenvolvem peças com identidade, pesquisa de forma, cor e uso. Sem esquecer que existe um polo cerâmico ancestral em Maragogipinho, com mestres e mestras que sustentam saberes há gerações.
Reconhecer essa importância local é sofisticado. E necessário!
No design gráfico, faço um parêntese autocrítico… eu não conhecia pessoalmente o trabalho do Estúdio Agá, que é baiano. Já havia tido contato com a Crua, também baiana, por meio de uma amiga em comum. Ambas dialogavam, em nível de consistência conceitual, com a Fabrico de Ideias, de Recife, que completou um recorte. Linguagens distintas, mas todas sustentadas por identidade forte e entendimento do design como ferramenta cultural. Esse meu reconhecimento tardio também diz algo.
O que atravessa todas essas camadas é um comportamento recorrente: ainda valorizamos mais quando vem de fora. A Feira na Rosenbaum não cria essa lógica. Ela evidenciou.
O fato de tantas pessoas terem entrado no Palacete Tira Chapéu pela primeira vez por causa da Feira é, ao mesmo tempo, positivo e alarmante. Positivo porque amplia repertório. Alarmante porque expõe que muitos só atravessam certas portas quando existe um grande validador envolvido.
Criação autoral local não pode ser encarada como alternativa periférica. Ela também é base cultural nacional. Se queremos uma cidade com identidade criativa forte, precisamos saber como distribuir nosso olhar e, principalmente, onde colocamos nosso dinheiro.
Marcas locais não podem ser segunda opção, principalmente porque não há sempre grandes eventos. Elas também são o nosso próprio evento. E estão aqui todos os dias.
A Feira na Rosenbaum passou. Agora fica a pergunta… o interesse pelo autoral também passa? Porque nosso repertório não se constrói com visita pontual. Se constrói em permanência.